Contra mim falo, acordo de manhã, levo as miúdas à escola, trabalho por 8 horas 5 dias por semana, vou ao ginásio, venho para casa, janto, durmo e mais uma moedinha, mais uma voltinha.
"méééé!"
Mas ousem ser diferentes, ousem ser gozados, ousem ser criticados todos os dias.
Ousem saber quem realmente são, genuinamente.
Sem se importarem com os rótulos.
Quem és?
Os teus sonhos onde estão?
O que perdeste pelo caminho da rotina da tua vida?
O que deixaste de fazer pensando nos julgamentos dos outros em detrimento da tua felicidade?
Quando tomas uma decisão, quando fazes uma escolha, ela reflete quem és e aquilo em que acreditas?
Fazes tudo de forma consciente?
Tens em consideração o impacto das tuas escolhas em sentido global, sem te deixares limitar pelo preconceito?
Se consegues fazer isto a cada passo que dás... parabéns. Eu não consigo.
Mas consigo passo sim, passo não.
Não foi de um dia para o outro mas foi depois de muita dor. O que não interessa nada agora e não é chamado para aqui.
Nem sempre me apercebo do que transmito às minhas filhas...
Não sou daquelas mães sempre atentas a tudo, que verificam os trabalhos de casa e que tiram as nódoas da roupa impecavelmente.
Muitas vezes as calças das minhas filhas estão sujas nos joelhos. Muitas vezes têm ranho e... bolas, às vezes demoro muito tempo a cortar-lhes as unhas!
Pouco nos resta no final do dia, mas esse tempo não é passado com trabalhos de casa. Todos os fins de semana há algo para fazer! Tento fazer a minha vida e inclui-las ao máximo em tudo o que faço.
Não quero as melhores alunas. Quando vejo pais em reuniões de pais que querem que os filhos trabalhem mais e que sejam alunos de 20, não sinto se não uma grande tristeza para onde nos dirigimos...
E respeito? E tolerância? E os sonhos?
A educação é fundamental, sem dúvida! Mas está a ir pelo caminho que devia? Ou estamos só a criar seres autómatos para serem os melhores alunos para depois serem os melhores escravos?
Nem sempre me apercebo do que transmito às minhas filhas... ok.
Sendo uma realidade que as crianças aprendem muito mais pelo exemplo (o que nem sempre é bom...), as minhas não param de me surpreender!
Quem me conhece sabe que não imponho a minha alimentação às minhas filhas.
Acho que elas vão tomar decisões de consciência, sabendo quem são. Não vão procurar a aceitação de ninguém exceto delas próprias, sabendo o que fazem e porque o fazem e não porque toda a gente o faz!
Não lhes faço refeições omnívoras. Não as incentivo ao consumo de produtos de origem animal. Tento mostrar-lhes as coisas como são. Toda a crueldade, tortura e exploração que existe por trás dos nossos padrões de consumo atuais.
Contudo, não as proíbo de comer o que quiserem, fora de casa. E, assim, acontece de às vezes as ver a comer uma sande de fiambre num aniversário. Ou de ter de conter as lágrimas enquanto o pai da mais nova lhe põe no restaurante bacalhau no prato e ela diz que gosta (já a carne é que não se atreve mesmo, porque aí juro que choro!). O que não é das coisas mais difíceis de ver e calar que já tive na vida, portanto, tudo ok.
Disse à minha mais velha que iam haver refeições vegetarianas na escola.
Andou estes meses todos em êxtase! E eu a pensar "Até parece que no outro dia não te vi a emborcar um bocado de fiambre, pois… por acaso!".
O certo é que subestimei o que lhe transmito sem me aperceber.
Passava a vida a dizer que a partir de setembro ia haver refeições vegetarianas na escola. Pôs-me a falar com a cozinheira... Eu continuava a pensar "Vais comer vegetariano, vais. Até veres um hambúrguer no prato ao lado!"...
Não me preocupei em ir à escola preencher o pedido para que ela fizesse refeições vegetarianas. Todos os dias me pedia.
Para quem não sabe, estamos a falar de uma menina especial, com algumas limitações. E se normalmente há coisa que ela não é, é despachada. Tenho de a lembrar um trilião de vezes de alguma coisa e mesmo assim a probabilidade de insucesso é grande.
Pois a rapariga andou a informar-se do que era necessário, fez amizade com coleguinhas vegetarianos e chegou-me a casa com os papéis para assinar e deu-me todas as instruções. Tudo por esforço e iniciativa dela.
Certo é que ela está habituada a ser diferente, por isso... não é por aí...
Mas o sacrifício de não comer o dito hambúrguer ou o assado... nunca imaginei.
Subestimei-a. Subestimei o exemplo que lhe passo. Subestimei-nos!
Ela é um orgulho para mim. Não nas notas. Na pessoa que se está a tornar.
Muitos não querem ser amigos dela, nem são agradáveis. Não compreendem a diferença. Mas ela sabe quem é. E percebe que a primeira pessoa que ela pode melhorar é ela própria. Quem dera a muitos melhores alunos da turma.
Isto enche-me o peito.

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